Roça! Economias coletivas e espaço comunitário

A Roça! veio a existir em meados de 2010 com a proposta de trabalhar coletivamente e em autogestão na distribuição de produtos de pequenos agricultores agroecológicos e produtos naturais e com isso ganhar um certo grau de autonomia na nossa base que é a favela do Morro do Timbau/ Maré. Iniciamos as nossas atividades com entregas e rodadas de pedidos, mas já em 2011 conseguimos alugar uma lojinha no Morro do Timbau e com isso as nossas duas bandeiras principais ganharam vida, lado a lado: o trabalho autogestionário e a construção de um espaço comunitário independente.

A venda de produtos que vêm de formas alternativas de produzir também é uma ferramenta de comunicação, os produtos falam com as pessoas e nisso como qualquer comércio na favela a loja da Roça! tornou-se um espaço de interação social, de troca e de aprendizado mútuo. Com o apoio solidário do grupo desierto florido de Tübingen/Alemanha e com muito trabalho não remunerado diretamente investindo o retorno em infraestrutura, conseguimos, desde a compra de uma pequena loja em dezembro de 2012 sair da correria de ter que pagar aluguel todo mês e construir a loja e o espaço comunitário Roça! como ponto de encontro e interação, ao mesmo tempo que de distribuição, e de produção.

Revender e produzir coletivamente

Os nossos principais produtores são o produtor de mel Augusto, a agricultora agroecológica Juliana e a produtora de café Dona Orení cujos produtos sempre recebemos com muito prazer para revendê-los. Sempre temos produtos de grupos culturais e de artistas e de diversos grupos e movimentos sociais cujos produtos tivéssemos acesso. São estes produtos naturais como arroz, farinha de linhaça, grão de bico, semente de girassol para somente nomear algum. Além de revender desde cedo na nossa trajetória ficou claro de que, para conseguir alguma renda digna deste trabalho de formiga que fazemos, seria bom e necessário também produzir por nós mesmos, utilizando o tempo e espaço na loja também para isso. Nisso surgiram três linhas principais de trabalho: a produção de alimentos como caldos, bolos ou pães; a reprodução de DVDs e, mais recente e promissor, a produção coletiva de cerveja artesanal.

Agroecologia e produtos naturais

Sempre estamos trabalhando com uma lógica de “o melhor dentro do possível”. Não temos nenhum pouco o desejo de reproduzir o mundo plástico do “mundo verde” e dos programas de beleza e “saúde” da globo, um mundo no qual vivem bonecas barbie que comem um iogurte light por dia e só. O que buscamos é uma reconexão de quem trabalha para produzir e quem consome o que é produzido. Criar uma ponte entre espaços populares do campo e da cidade. Mel, café, geleias, frutas desidratadas como a banana passa, são coisas que sempre temos disponíveis. A agroecologia como maneira de trabalhar a terra de maneira adequada e eficiente em pequena escala, sem se utilizar de transgênicos e nem de agrotóxicos, para produzir uma riqueza e diversidade que o clima tropical propicia, entendemos como prática questionadora e transformadora e mesmo que em pequena escala, é essa prática que queremos divulgar a partir da circulação de seus produtos. A agroindústria destrói, envenena, mata e nas cidades temos pouco acesso a alternativas. Lutemos cada vez mais, para que seja cada vez menos assim!

Para abastecer os moradores e os nossos vizinhos do Timbau com uma gama de produtos além daqueles que conseguimos com pequenos produtores próximos do Rio, também temos relação comercial com distribuidores convencionais de produtos naturais, com produtos como castanhas, rapadura, arroz, farinha de linhaça ou aveia sempre pensando em contribuir com que as pessoas possam se alimentar bem sem ter que pagar fortunas.

Espaço comunitário

A nossa atividade econômica é o trabalho coletivo de distribuição e produção. Nosso objetivo principal porém, além disso, é poder estar ativamente envolvido na favela onde moramos e atuamos. O Timbau é uma favela da Maré, que no total conta com mais de 140.000 habitantes. São muitas as formas, neste território, das pessoas lutarem, se ajudarem e colaborarem para agir diante de muita repressão, discriminação e violência, diretamente ou indiretamente vinculada á ação de agentes do estado. Nisso entendemos que um espaço comunitário tem sua importância no dia-a-dia, com atividades como o nosso cineminha para as crianças que moram ao nosso redor, mas também como espaço de articulação política não-partidaria, de resistência de moradores e apoiadores de suas causas. Em fases de muita repressão, a loja da Roça é também um lugar onde podemos encontrar, interagir e nos organizar minimamente para manter união e força. Nisso, fica claro que um espaço como a Loja da Roça! somente é possível de existir devido a inúmeras formas de apoio, colaboração e ajuda que recebemos de vizinhos, amigos de perto e de longe e grupos e movimentos que lutam por suas devidas causas e em seus lugares e por isso e a partir disso tecem juntos uma rede solidária de resistência que parte de favelas e espaços populares. “Favela é resistência!”

Rede Economias Coletivas

Como coletivo econômico, a dois anos estamos juntos na construção da Rede Economias Coletivas e em novembro do ano passado aconteceu o primeiro encontro anual desta rede na quadra Corações Unidos aqui em frente á nossa loja. Foi um ótimo encontro e o acúmulo do encontro está no caderno “Economias Coletivas”, disponível do site da rede. O objetivo desta rede é aproximar grupos e movimentos que constroem outras economias, como o grande parceiro Movimento das Comunidades Populares, dentro de uma perspetiva não-governista, ou seja, sem dependências de estruturas partidárias e de ONGs. Trabalho coletivo, horizontalidade, autogestão, remuneração justa caraterizam a abordagem da economia que entendemos como um meio para fortalecer as lutas sociais e construir uma base mínima no aqui e agora para a superação do sistema capitalista, que se não acabamos com ele, acaba com a gente, como já é o caso diariamente com milhares de pessoas sofrendo e morrendo de fome, guerras, violência de estado e falta de acesso as coisas mais básicas enquanto que uma pequena minoria vive em situações de luxa cada vez mais absurdas e mais esvaziadas de qualquer sentido social. Nesta perspetiva sempre apoiamos e abrimos espaços para iniciativas de articulação e resistência e participamos desde antes que a própria Roça veio a existir do Bloco de Samba Se Benze Que Dá: “Vem pra rua, morador! Pelo direito de ir e vir!”

Fórum Popular de Apoio Mútuo

Lado a lado com a perspetiva econômica de luta, na lógica de um trabalho de base na favela, estamos participando, desde 2013, do Fórum Popular de Apoio Mútuo, um espaço de articulação e ação em conjunto de núcleos de resistência em diversas favelas do Rio de Janeiro. O Fórum apresenta para nós um espaço importante de conexão e fortalecimento mútuo de periferia para periferia, com apoio de companheiros de movimentos sociais e com protagonismo dos moradores de favela que se mobilizam e organizam para construir poder popular nas bases. Além das dificuldades e das inúmeras formas de repressão e opressão violentas estamos insistindo coletivamente em construir nossa agenda coletiva junto a grupos e movimentos sociais populares na e para a favela. Grandes sonhos que cabem em pequenas iniciativas, multiplicando e conectando-se formando algo maior. “Apoio e respeito mútuo, viva a resistência popular!”

Cerveja artesanal

No encontro de Economias Coletivas do ano 2013, um grupo de companheir@s do Fórum se animou juntos para aprender a fazer cerveja artesanal, ideia e prática apresentada pelo cervejeiro André naquele encontro. Estamos desde então colaborando para montar uma base para a produção coletiva e cerveja e junto a companheirada do Fórum e ao André já conseguimos produzir diversas variedades de cerveja e com a doação de equipamento de um amigo nosso, desde agosto de 2014 estamos realizando brassagens coletivas e públicas na loja da Roça! para sempre ter uma cervejinha artesanal gelada e pronta para apreciar em atividades e encontros.

A tela é nossa!

A tempos, incentivados e em colaboração com os companheiros da Livraria e Editora Consequência e com o companheiro León que já reproduziu e distribuiu milhares de documentários legais, estamos trabalhando para montar um esquema de reproduzir DVDs e finalmente ganha vida em meados de 2014 o nosso selo de distribuição alternativa de filmes, da base para a base. Vamos copiar os DVDs produzir as capas e distribuir filmes de parceiros nossos, filmes que tratam das lutas e que noa fazem pensar e agir, sempre repassando o valor de R$ 1,50 por DVD vendido para que possa haver mais destas produções nossas, tirando a comunicação cada vez mais das mão do grande capital. Além deste filmes com contato direto de quem os fez, distribuímos cópias diversas de filmes que gostamos e nestes casos os R$ 1,50 vai para um fundo de apoio a futuro projetos de produção independente. Você tem um bom filme e quer distribuir ele? Quer reproduzir DVDs de seu movimento ou grupo ou banda com capa bonita, fale com a gente!

Biblioteca, livraria e videoteca

Sempre temos também uma pequena gama de livros e filmes que podemos emprestar, também para crianças, e temos uma pequena livraria com livros que refletem e discutem lutas de resistência.

Muita cultura e comunicação

Sempre estamos gratos podendo em abrir as portas da Roça! para atividades culturais. Tem toda uma trajetória de encontros, shows e atividades que fazem parte da memória coletiva deste espaço. O mais recente sucesso é o Sarau Cultural que desde agosto de 2014 acontece uma vez por mês. Também gostamos de ir para onde for para chegar junto em feiras, encontros, shows nas praças e nos espaços de resistência pela cidade. Nisso também distribuímos produções de coletivos culturais, camisas e CDs dos parceiros de Os Neguin Q Não Se Kala ou do Repper Fiell, quadros do Mestre Manoel da Nova Holanda, produtos das culturas da resistência, mas não esta cultura como produto!

Também temos livros e jornais, uma pequena videoteca e biblioteca na lojinha além de admirar e sempre que possível buscar fortalecer o trabalho dos comunicadores populares, como do jornal cidadão aqui da Maré, do jornal Notícia Por Quem Vive na Cidade de Deus ou do grupo TV Tagarela da Rocinha. A grande mídia manipula e mente, vamos depender cada vez menos dela e circular as informações entre as bases.

Vemos muita importância na articulação em conjunto e de campanhas contra a repressão e a desinformação. Levantamos a bandeira “Protestar não é crime” junto a diversos movimentos populares, como @s companheir@s do Movimento Organização de Base (MOB), do Movimento das Comunidades Populares (MCP) e outros movimentos da cidade e do campo.

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